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Seu Carlos.

 Ontem a noite fui dormir pensando no post de hoje, eu tenho que me inspirar, eu tenho que melhorar, eu tenho que buscar escrever mais. Escrever é meu ponto de relaxamento, e o único meio que eu encontro de me "desestressar".
 Mas pensando nisso ontem a noite, me veio à cabeça a figura de uma pessoa limpando os vidros. Eu queria saber o porquê de eu pensar nessa pessoa, queria saber o que ela trás de bom pra mim. E foi através da imagem dela na minha mente que me inspirou a escrever hoje. Eu deveria ter levantado da cama, pegar o caderno e escrever, mas tava frio. Eu tava inspirada, 'escrevi' este texto mentalmente, esqueci o que era pra ser realmente escrito, mas vamos lá...
 Seu Carlos. Ah, eu não sei o que ele representa pra mim, não mesmo. Talvez ele me lembre meu vô, talvez o jeito dele faça eu pensar que ele tenha um coração tão grande quanto o do vô. Se meu vô estivesse morto (e ainda bem que não está, rs), Seu Carlos me lembraria dele todos os dias.
 Seu Carlos é 'zelador', mantém a escola limpa, preserva-a melhor que os alunos, cuida mais do que todos os responsáveis por cuidar dela mesmo, e eu penso... eu penso que ele não é valorizado por isso. Eu penso que cada pessoa deve ser valorizada, mesmo ela sendo 'de baixo', mesmo ela tendo pouco. E é aí que tá. O pouco. Seu Carlos não tem pouco, Seu Carlos tem muito, digo, espiritualmente. O lado 'pouco' que ele tem é a valorização, pouca valorização, diria. Poucos mantimentos, pouco ganho para o muito que ele faz.
 Os alunos passam e não veem ele como eu vejo, mas eu vejo pra mim, não costumo compartilhar, até porque as pessoas acham graça. Eu dou bom dia à ele, todo dia que o vejo, e acham graça, não sei o que elas pensam, mas acham graça. Graça do quê? Eu não sei. Graça dele ou de mim por falar com ele? 
 Um 'Bom Dia' pode sim alegrar o dia de uma pessoa, pense nisso. Eu nunca vi o sorriso do Seu Carlos antes, agora ele sorri pra mim, e eu fico feliz.
 Seu Carlos não é bonito, mas tem um coração bom; não veste-se bem, mas me passa a imagem de que não basta vestir-se bem, tem que ter caráter; não ganha muito, mas tem muito a oferecer; não é fortão, mas aguenta toda uma ignorância. E aí eu penso: e aquelas pessoas que ganham muito e pouco tem a oferecer? O que serão delas, se não o dinheiro? O que serão delas, se não suas roupas de marca? O que a ignorância faz delas? Por que aquele que tem pouco pode por vezes ser melhor daquele que tem muito? 
 Nunca vi ninguém dando um bom dia à Seu Carlos, nunca vi ninguém valorizando o trabalho dele, nunca vi ninguém elogiando-o, nunca ouvi dizerem á ele, o quão importante ele é pra aquela escola. Pra mim, ele faz mais do que todos ali. Pode ser sim que seja essa a obrigação dele, que seja uma obrigação do trabalho dele, limpar, cuidar, zelar... mas ainda assim, o papel mais importante lá seria ele, claro que ninguém vê isso.
 Ano passado Seu Carlos era um 'tesouro', sim, um 'tesouro'. Estávamos na gincana e chegou a hora de caça ao tesouro. E adivinhem quem era o tesouro? Seu Carlos, rs. Os alunos ficaram debochando porque a prova tava muito difícil, mas era uma coisa tão óbvia, as dicas eram óbvias. Dizia que o 'tesouro' ficava entre o pátio, pelas plantas, pela faxina, e ninguém pode imaginar que o tesouro fosse ele.
 Seu Carlos poderia ser Mr. Bean, é. Ele faz você rir sem ter que dizer uma palavra, até o andar dele é engraçado, - ele é magro e um pouco baixo, mas mesmo que esteja frio, ele tá com uma blusa de manga curta, sempre com os braços amostra, e eu brinco: - Olha lá Seu Carlos vindo, todo bombadão, rs. -  ele faz você pensar sem ter que mencionar nada. Ou então ele poderia ser Sócrates (puta merda, como eu não pensei nisso na aula passada). Sócrates não deixou nada por escrito, falava em praça pública e obtinha muito conhecimento. E assim é Seu Carlos, sua praça pública seria o pátio, suas falas seriam seus gestos e seu olhar, seus discípulos seriam aqueles que assim como eu, reconhecem-o. 
 Mas Seu Carlos é brabo, se você não o obedecer, ele briga com você. Geralmente viram as costas e deixam ele resmungando sozinho, ele fala tão rápido que ninguém entende nada, você só entende a última palavra, a coisa sai mais ou menos assim: - Bababibababu lá! Bababibababubabão lá em baixo. háhá.

 E obrigada Seu Carlos, obrigada por me inspirar hoje. Que Deus te guie e ilumine, hoje e sempre.
 - E lá vem Seu Carlos todo bombadão ó!

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