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Conto 2.

 Em meio a escuridão da noite, Pedro caminhava com seus avós; para e olha aquela rua abandonada que tivera tanto medo na infância, olha pro céu, vê a lua minguante, linda, céu sem estrelas, só ele e a lua, percebe um vulto passar por ele, sente um arrepio, deve ser o frio, ou não. Ouve barulho de carro, e ao longe, avista faróis altos. Procura seus avós. Onde estão? Chama-os. Silêncio. Olha pra trás, vê um homem alto, de capuz preto, correndo em sua direção. Pedro corre. Chega em casa, tranca a porta apressadamente. Alguém bate. Ele se afasta e ouve sua Mãe gritando algo ininteligível e... : - Pedro, abra! Ele abre, era só seu avô. Vai até o quarto, sua avó já estava deitada. Não pode ter passado tanto tempo assim olhando aquela rua. Descobre que sim, passara muito tempo; e seu avô tinha ido buscá-lo.
 Sonho. Pedro sonha com um homem alto, de capuz preto, correndo em sua direção, de novo. Dessa vez não era seu avô. Pedro desconhece aquele rosto. Um rosto deformado, feio, tenta lutar contra ele e cai, e é nessa hora que ele inconsciente dá um pulo da cama. Acorda. Vai pra escola.
 Ouve barulho dos pássaros, que irrita-o. Lembra que esquecera seu fone em casa, queria desesperadamente  ouvir seu rap e ficar quieto num canto, sem falar com ninguém; estava cansado de tudo, estava cansado de todos. Tudo o irritava. O mundo estava demais pra ele.
 A aula estava chata, o quadro, cheio de matéria. Odiava química e o professor não parava de falar, e enquanto falava, ele ia compondo seu rap e estava satisfeito com aquilo, só era bom naquilo, era a única coisa que sabia fazer bem.
 Lutava por um amor não correspondido. Pensou nela. Como era linda. Pensou mais. Como foi bobo. Bobo por se deixar levar por ela, por se prender tanto à ela; não era isso que queria, não queria amar ninguém e sentia raiva de si mesmo por isso. Ela não amava-o, enquanto ele a queria.
 Volta pra casa. Passa pela mesma rua novamente, observa, está vazia. Dá um passo atrás, olha novamente, percebe um vulto, sente o mesmo arrepio da noite passada. Olha de novo. Agora ele vê. Vê alguém sentado na grama, bem no final da rua, rindo sozinho, o riso o causa medo. Tenta dar alguns passos, pra ver se reconhecia, era a mesma figura dos seus sonhos. Alto, capuz preto. Era tudo o que via. Voltou correndo pra casa.
 Naquela noite, Pedro já não conseguia dormir quando ouve batidas em sua janela. Puxa mais o cobertor para si. Lembra da pessoa do seu sonho. A batida continua, sem parar. No quarto ao lado, sua irmã está aos berros, não parava de chorar; lá embaixo, seus pais discutiam. Levanta-se, vai até a janela, abre a cortina rapidamente, esperando dar de cara com a pessoa daquela risada horrenda, mas não, era só o galho da árvore, ventava muito lá fora. Voltou pra cama. Pensou Nela. Como queria alguém do seu lado, alguém pra dar colo, pra segurar na sua mão, pra abraçar quando bem quisesse, e como queria um amigo e alguém pra contar. Não tinha ninguém.
 Outro sonho. Parece que hoje, a pessoa alta, do capuz preto queria dar um recado. Passava imagens no seu sonho, daquela menina que ele tanto gostara, dizia para que ele ficasse com ela, que protegesse-a contra ele mesmo e contra essa pessoa. Ou faria isso, ou a menina morreria.
 De manhã, já a caminho da escola, lembra-se do sonho. Não poderia ser verdade, era apenas um sonho.
 Chega na escola atrasado, vê muito tumulto, gente chorando, gritando, vê sangue escorrendo pela porta do banheiro feminino. Passa pela sala da 'sua garota' olha em volta, entre tantos, cadê ela? CADÊ ELA? Não, ele não podia acreditar. Ele não queria acreditar. Volta para o corredor, passa de volta pelo banheiro feminino, consegue ver um braço em meio a todo aquele sangue. Um braço, uma pulseira rosa com o nome dela. Era ela. Mas como? Pensava que ainda estava sonhando, fechava os olhos e abria vagamente, não era sonho. Era o aviso.
 Volta pra casa, dessa vez não olha para aquela rua, mas ouve a risada, a mesma risada de todos os dias, com certeza da mesma pessoa. Em casa, joga a mochila em cima da cama e chuta tudo que vê pela frente, eufórico.
 "Nunca podemos deixar passar em branco as pessoas que amamos, porque um dia elas se vão. Pare de adiar as coisas e diga que ama-a, faça-a acreditar em todo teu amor, embora não queira. Deixe de ter medo, o medo só impede de fazer o que queremos. Não use palavras para conquistá-la, use gestos, estes valem muito mais. Quer dizer, não precisa dizer nada à ela, mas faça-a acreditar, pelos seus gestos, trate-a bem, toda menina gosta de se sentir especial, pare de negar e de mentir pra você mesmo que não gosta dela." Não sabe-se como, mas esse bendito trecho da aula de português foi parar logo em cima de sua escrivaninha, logo hoje, logo num momento como esse, para fazê-lo chorar mais. Sentiu-se culpado por ter deixado Ela passar, por nunca ter se declarado pra ela, por nunca tê-la tratado bem, por nunca ter dito que amava-a. E agora ela se foi, e a culpa foi sua por não protege-la. Não conformava-se com isso, tinha raiva de si mesmo.
 Pedro sonhava diariamente, mas no dia da morte dela, não teve sonhos, embora tenha passado o dia todo isolado em seu quarto.
 No dia seguinte, a tarde, Pedro sonha. Sonha com a mesma pessoa de sempre. Agora, o recado era pra ele mesmo, a pessoa, o 'irreconhecível' ameaçava matá-lo. Foi um sonho estranho, o pior de todos. Quando acordou, teve medo, medo de ser verdade, e sabia que seria.
 Naquela manhã, quando todos saíram de casa, Pedro acorda cedo, senta-se na cama, agarra-se ao cobertor, e espera... espera mas nada acontece. Levanta-se, vai até o banheiro, olha-se no espelho, sente aquele mesmo arrepio, ouve o barulho de passos na escada, ficando cada vez mais perto. A maçaneta do banheiro gira e então... era a pessoa! Esperou tanto tempo pra estar frente a frente com aquela figura que tanto o assombrava, que tanto vivia naquela rua imunda, e que atrapalhara na sua infância. A pessoa era negra, seu capuz tampava seus olhos, não dava pra saber o sexo, olhou suas mãos, uma faca. Pedro pensa: "Vamos valentão, me enfrente." Pedro olha para o espelho, vê sua imagem refletida junto a pessoa do capuz. Pega uma lâmina, e automaticamente corta seus pulsos. A pessoa ri. Aquela risada horrenda, enoja-o. A risada não para e soa como um eco, e Pedro olha pra pessoa, já muito irritado e tenta tirar seu capuz, nesse momento, é esfaqueado e ainda assim olha-se no espelho, pra ter o gosto de se ver morrer. Olha no espelho novamente, procura a pessoa e não encontra-a. Mas cadê? Abaixa os olhos, vê que a faca está em sua mão, seu pulso está jorrando sangue, e a faca,  agora, de encontro com sua coxa. Pedro caí. No banheiro, do mesmo modo que a menina, com o braço pro lado de fora.
 Agora fazia sentido. As câmeras de segurança da escola registraram imagens do assassinato da menina. Pedro matara. E sua morte foi suicida, segundo o perito criminalista.
 Pedro era doentil e tivera alucinações a vida toda, desde a infância. E enquanto o que podemos levar da morte da garota, "As coisas acontecem assim mesmo, amamos e não falamos, deixamos o amor passar em branco, até perder. Até perder a pessoa e sentir culpa por não termos falado tudo o que queríamos, e se acontecer com você, e se você perder a pessoa que você ama, amanhã? Vai deixar passar em branco também? Nunca se sabe, nunca se conhece as pessoas, não totalmente. Talvez ela esteja esperando uma atitude sua. E talvez... talvez tenha vários Pedro's perdidos por aí, não com o mesmo final, mas com o mesmo erro de mentir para si mesmo."

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