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Quase morte.

 Janeiro ou setembro, já nem me lembro. Sei que passaram-se 12 anos. Quando crianças, nunca esquecemos algo que foi realmente ruim, ou talvez nem tão ruim assim; naquele momento foi ruim, agora já não é mais porque passou; naquele momento eu chorei e tive medo, agora estou aqui porque superei e não há mais medo.
 E é isso, quando você chega 'perto' da morte, logo que o momento passa, você perde o medo, sabe que tudo se apaga e pronto, sabe como vai ser quando o momento chegar, e lembra-se também que não terá desespero, a menos que seja uma morte sufocante, mas será morte, e a gente supera. 
 Sabe...? 9 dedos furados, 18 horas morta. Mais um dedo furado e pronto... sua alma volta. E pra alegria de todos, há vida. 
 Só há uma coisa que eu não lembro. Eu não lembro como era antes. Tu não consegue lembrar de como era tua vida. Parece que quando você sai de si, você perde uma boa parte, parece que a 'alma' leva tudo pro lado de lá, e deixa lá, em algum lugar. Só me lembro de lá pra cá, daí sim, me lembro de tudo, e de sorrisos, havia muitos sorrisos. E quanto mais eu sorria, mais sorrisos tinha. Talvez isso explique meu bom humor, e a maneira como faço as pessoas riem, mesmo estando tristes.
 E talvez por isso sempre há morte na maioria dos meus textos. A morte é uma coisa inevitável nos meus textos, mesmo! Só não pense que é uma coisa ruim, só é diferente. Quando tu se desliga do mundo, não é tão ruim assim. É ruim porque as pessoas sofrem por você, mas acaba não sendo tão ruim pra você.
 E enfim, há vozes e há imagens, que nada explica. São coisas sem nexo mesmo. Talvez um dia vá fazer sentido, quando acontecer de novo, ou talvez não também, nunca se sabe. Só que cada tempo perdido, não é apenas tempo perdido, é desperdiçado, é como um lixo na rua que deveria ser colocado no lugar certo, ou algo assim. Ou nem isso. Não sei.
 Não há nada que te queira fazer mal naquele momento, e realmente, não há nada que te faça mal. Você recomeça com uma paz de espírito, mesmo sendo uma criança, você se abre pro mundo e muda. Eu não diria que é nascer de novo, porque não é. Você volta a mesma pessoa só que com concepção de vida diferente. Você aprende a pensar, e sabe que há sempre alguém com você. E sabe também que não precisa ter medo, embora tenha. Assim como a perda pra mim é um grande medo. Poderia superar todos os medos facilmente - acho - , menos a perda, porque ela dói e não te garante que haverá superação depois.
 E quanto as vozes e imagens...eu não sei dizer se eram realmente imagens ou se eu via mesmo 'a coisa toda' de perto mesmo estando fora de mim. É, isso eu não sei dizer, é estranho lembrar. Mas não há um dia que eu não pense nisso. Mas havia um gato... um gato preto que ficava lá em cima do armário me olhando, a noite toda, mesmo com minha Mãe ou meu Pai do meu lado, ele estava lá. No momento eu não tinha medo, mas depois que passou eu comecei a ter, porque sempre esperava ele aparecer pra mim de novo, e como não aparecia, eu imaginava que pudesse estar em qualquer lugar. Mas também havia luz. O quarto estava escuro, todo escuro mesmo, mas quando alguém imaginário ou não, ia falar comigo logo atrás da pessoa, uma luz acompanhava-a, isso era mágico, e é bom de se lembrar. E aí você acredita em anjos, realmente... Você pode pensar que não, sempre há alguém querendo nos proteger, não importa o quão ruim você seja. Aí você consegue atrair as coisas mais facilmente, aprende a esperar, e de alguma forma, sabe acreditar naquilo que se quer, e deixa agir naturalmente, porque nada se vem por impulso. Quando mais você pensa no futuro, mais as coisas já estão quase feitas, só que lá... lá no futuro; então esqueça um pouco o futuro e pertença ao presente, é tudo que poderei dizer. Até os pensamentos são gravidade. Até os pensamentos são força, acreditando ou não. Estabeleça um objetivo e acredite nele, com a humildade de ser quem você é. Procure a cada noite encontrar um motivo razoável para se acordar bem na próxima manhã.
 Quando você 'morre' e volta (não sei se seria bem isso) ou quando você 'quase morre' e volta, sei lá... você percebe o quão importante você é na vida de cada pessoa, o quanto cada uma ansiou por seu sorriso novamente, o quanto cada uma deixou tudo de lado por você, o quanto cada uma queria te ver sorrir de novo, e que depois perceberam que isso era muito fácil, que dali pra frente tudo seria motivo de sorrisos, que os obstáculos seriam consequências, que quando se quer muito algo, a força de vontade é maior que tudo e precisa haver união, mais que tudo. Você se sente melhor ainda que o motivo da união mais precisa, foi por causa de você. E não tem porque você ser uma pessoa infeliz hoje. Ser infeliz também é consequência, você é o que você quer, só que isso não é tão complexo e específico, você tem que correr atrás e fazer acontecer.
 Me lembro também que do meu sorriso deu origem a um choro de alegria. Eu lembro perfeitamente e foi a primeira coisa que eu vi quando eu voltei, a primeira pessoa. Estava lá do outro lado do vidro, desesperado por algum movimento meu, e aí eu abro os olhos, - parece que foi automático, parece que eu já sabia que ele estaria lá quando eu acordasse - viro a cabeça vagarosamente em sua direção, e em vez de demonstrar uma expressão de cansada, que era o que todos esperavam, eu sorrio. Olho e lá estava meu vô, e lembro o quanto aquele choro foi lindo, haha. O vidro nos separava, e eu o reconheci de imediato.
 E eu sei, que Deus estava presente em todos os momentos : )
 Então o texto tomou outro rumo e a inspiração tomou um rumo junto com ele também, e a falta de palavras foi junto, e eu termino por aqui.
  

  

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