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Continuação, Conto 3.

  ... na verdade, eram os passos Dele. Era Ele que os vizinhos viam entrando na casa. Mas ela não sabia disso, ele ficara totalmente dependente dela, mesmo ela não sabendo.
 A cozinha era uma bagunça, tudo na casa era. Então quando Ele descobriu que seus pais atormentavam-a, ele retornava mesmo assim, mesmo quando subia ao andar de cima e o Pai dela tentava impedi-lo de subir, que era onde havia ainda mais barulho de panelas, que não deixava ela dormir. Mas Ele era esperto, sabia que ao acordar ela tomaria seu calmante. Ele dopava-a. Ela dormia num sono profundo, e assim, Ele poderia aproveitar-se dela, tocá-la quando bem quisesse, acariciava seu rosto, sentia seu cheiro, passava a mão nas partes íntimas, pensava em abusa-la sexualmente mas não o fez. A essa altura, Ele era quase doentil, ou totalmente, não se sabe.
 Mas sabe aquela segunda feira fria em que ela acordou e foi à rua? Ele resolveu segui-lá, como sempre. Mas dessa vez, pra falar com ela.
 Foi correndo na direção dela, puxou-a pelo braço, e olhou fixamente dentro do olhos.
 E disse: - Bom dia, minha flor.
 E a entregou uma flor.
 Ela sem reação, respondeu seu bom dia, aceitou a flor e continuou andando, em passos lentos, olhando para trás e vendo ele ficar cada vez mais distante.
 Lembra-se então que era Ele, ficou incomodada com aquilo. Foi correndo pra casa, e só ela sabe o quanto desejou-o ali com ela, entrelaçados naquele colchão solitário.
 Ele entra em casa com ela, carregando-a no colo, depois de uns bons drinks. Ela gargalha alto, tropeça em algumas panelas, gargalha de novo, Ele só observava. Levou-a para o andar de cima, ela estava com cede, cede dele, cede do corpo dele, ansiava pelo sexo dele, só pensava em jogá-lo na cama e fazer o que bem quisesse. E assim o fez. Beijou-o loucamente antes de caírem no colchão, tiraram as roupas com pressa, como se o mundo pudesse acabar naquele momento. Fizeram carícias, beijaram-se prolongadamente, e depois... depois vocês já bem sabem...
 Os lençóis ficaram molhados, de suor. Ela acorda ofegante, e Ele? Onde ele está? Já não estava mais a seu lado, então ela percebe que foi tudo um sonho. Ele não passou a noite com ela, nem a carregou pelo colo, nem tirou sua roupa...
 E Ele parou de procura-la e vigia-la. Só continuaria na tentativa se naquela segunda feira ela tivesse olhado Ele com a mesma intensidade e desejo como Ele olhou pra ela. Ela não demonstrou nada disso, mas no fundo, no fundo... ela queria Ele.

 E assim, ela voltou a sua rotina normal. Sua herança era tão grande que não precisaria mais viver como advogada.
 Voltou a adolescência. Depois daquele sonho, ficou com tanta vontade de tê-lo, que começou a doar seu corpo novamente, pra ver se acharia um corpo que a satisfaria tanto, quanto aquele.
 Sua Mãe continuava dançando atrás do sofá, e isso nem a incomodava mais, e a noite, já nem ouvia mais o barulho das panelas. Percebia que agora sim estava sozinha.
 Se ela tivesse olhado e demonstrado toda sua paixão por ele, estariam juntos agora, e toda aquela noite de sonho se tornaria real. Mas não... as pessoas não demonstram. São tão frias com si mesmas, esquecem de se dar outra oportunidade, não enxergam o obvio que está a sua frente, desprezam os que mais amam-as, e acabam sozinhas no mundo.
 E paz... paz era tudo que ela queria agora.

Dormiu até a próxima segunda feira. Mas aquela outra segunda feira foi diferente. Nada de roupão, nada de maço de cigarros, só o all star acompanhara. Soltou os cabelos, pôs um sorriso, e foi ao mundo, mesmo com a dor, a dor da perda, a dor... bom, tantas outras dores por aí, mas ela sorriu, isso que importa, mesmo escondendo tudo dentro dela, agora conseguiria sorrir.

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