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Conto 3.

 A Casa.


 Era uma casa muito vigiada. Não sabiam dos moradores, era distante da vizinhança, não recebiam visitas, do lado de fora ouviam-se gritos. Raramente podiam ver um homem alto, com um sobretudo preto, em que as golas tampavam o pescoço e mal podiam ver o rosto. Parecia ser um homem culto, e era. Ninguém sabia sobre quem comprou a casa, nem de onde eram. Havia mistério, e não dava pra disfarçar o rancor que a possuía.
 Nunca pintaram, nunca reformaram a casa, era do mesmo jeito desde quando tinham construído.
 Talvez foi alguém que queria viver longe de tudo, ou que estivesse se escondendo de alguém, pensavam os passantes.
 Vez ou outra viam a luz do andar de cima acesa, e alguém entre as persianas, não identificavam se era homem ou mulher, mas tinha o cabelo comprido.
 Tinha sempre alguém que a espiava.

 A moradora.


   Steffanie tinha estudado Direito, era bem sucedida, daquelas que sabiam bem o que queriam.
 Sua vida se tornou uma reviravolta depois que seus pais morreram. Na adolescência tinha sido uma garota rebelde, teimosa, chegava tarde da noite, incomodava os pais e quase sempre doava seu corpo a noite. Eles morreram, e vieram atormentá-la. Ela vivia infeliz na antiga residência, um prédio chique, perto de todos, na cidade grande.
 Resolveu então abandonar tudo isso, e se isolar. Precisava encontrar um lugar em que pudesse ficar sozinha, esquecer seus pais, mas não era possível. Até na casa nova eles atormentavam-a.
 Sua Mãe era bailarina, e Steffanie via a sombra dela dançando atrás do sofá úmido e com cheiro de mofo. Era também sua Mãe que os vizinhos viam entre as persianas, pois ela sabia que Ele estava vigiando a casa e que queria sua filha, mas na verdade, Ele nunca a deixara.
 Seu Pai ficava sempre na cozinha a noite, o que atormentava muito o sono dela, pois por onde passava, fazia barulho com as panelas.
 Os gritos da casa que a vizinhança ouvia, era os de Steffanie, quando ela ficava tão atormentada com aquilo tudo que jogava todas as peças de vidros possíveis, sobre a sombra de seus pais, tentava acertar sua Mãe, mas ela continuava dançando atrás do sofá, e girava, e girava... e ainda estava com a sapatilha de bailarina, do mesmo modo que foi assassinada.
 Numa segunda feira fria, Steffanie acorda, acende um maço de cigarro, enrola-se em seu roupão, poe seu all star velho, o que é muito estranho pra uma advogada, e saí pelas ruas, toda atordoada, vez ou outra tropeçava em seus próprios pés. Lembra-se Dele. Gostava tanto de doar seu corpo à Ele, mas faz tanto tempo que nem recorda mais do nome. Ele tinha o rosto feio, mas tinha um corpo espetacular.
 Ela não sabia, mas Ele sabia muito sobre ela, tanto é que ainda a procurava e vigiava a casa.

 Ele.


 Ele não suportava traição, mas traiu sua mulher e seus dois filhos com Steffanie, quando ela ainda era adolescente. Claro que ele era um tanto mais velho...
 Quando soube que seus pais morreram e ela se mudou, achou que seria uma oportunidade de tê-la mais vezes.
 O barulho das panelas vindas da cozinha, não eram do Pai de Steffanie, na verdade...

 -> O conto continua num próximo post.

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