Há dois capítulos do livro "1822" de Laurentino Gomes, que muito me chamaram atenção, "O Vendaval" e "O país improvável" - sobre o Brasil - e que gostaria de compartilhar no blog, pois são pontos muito interessantes sobre o surgimento do Brasil, que tampouco temos conhecimento.
A Revolução Francesa varreu o mundo com o ímpeto de um vendaval... na fase mais aguda do terror, vários líderes importantes da revolução acabaram mortos na guilhotina (finalidade de proporcionar uma morte rápida e sem dor aos condenados à morte) como o cientista Antoine-Laurent de Lavoisier, considerado Pai da química moderna e a quem se atribuiu a frase "na natureza
nada se perde, nada se cria, tudo se transforma." O verdadeiro autor da frase, na verdade, é o filósofo grego Anaxágoras de Clozômenas. Mas, "tudo que é sólido desmancha no ar", como diria Karl Marx.
Durante muito tempo, tudo isso funcionou apenas como teoria (de não precisar de rei, necessariamente), intensamente discutida nos salões e cafés parisienses. Seria possível aplicar essa teoria ao mundo moderno para governar sociedades maiores e mais complexas, e coube aos norte-americanos demonstrar que sim, era possível inverter a pirâmide do poder. A partir dali, todo poder emanaria do povo (por meio de eleições). A figura do rei se tornava desnecessária, então.
Tudo mudou no saneamento e na medicina. A criação das primeiras polícias sanitárias na Europa e a descoberta da vacina contra a varíola conseguiram controlar as epidemias que até então dizimavam grande parte da população. A redução da mortalidade pelo controle das doenças, combinada com novas técnicas agrícolas, que aumentaram a oferta de alimentos na Europa, produziu uma revolução demográfica no continente. A população da França, por exemplo, mais do que dobrou - o que significa mais gente para os levantes revolucionários nas ruas e também mais carne para os canhões das guerras.
Com o uso da tecnologia a vapor, os ingleses conseguiram multiplicar essa produção em escala exponencial nos primeiros anos. Em menos de um século, o volume de comércio nos portos de Londres triplicou.
Teve impactos gigantescos nos transportes e na comunicação também. Uma viagem entre Inglaterra e Austrália, que demorava 6 meses na época dos barcos a vela, foi reduzida para cinco semanas com a introdução dos navios a vapor. Até 1810, um pombo-correio demorava uma semana para levar uma carta de Londres a Paris. Com os barcos a vapor, o tempo diminuiu para dois dias.
A maré das inovações na Europa e nos Estados Unidos, chegaria com algum atraso ao Brasil... aqui, a educação limitava-se aos níveis mais básicos e a uma minoria muito restrita da população. De cada cem brasileiros, menos de dez sabiam ler e escrever. O deputado piauiense Domingos da Conceição reclamava do estado de ignorância em que viviam mergulhados os 70.000 habitantes de sua província, todos analfabetos. "São 70.000 cegos que desejam a luz da instrução pública." O salário de um professor equivalia a um terço do que se pagava a um feitor de escravos nas fazendas.
Em uma situação bem diferente dos Estados Unidos, onde a cultura havia criado uma colônia alfabetizada, empreendedora, habituada a participar das decisões comunitárias e a se manter bem informada sobre as novidades que chegavam da Europa.
A circulação dos jornais, nos Estados Unidos, chegava a três milhões de exemplares por ano, e no Brasil, isso só aconteceu dois séculos mais tarde.
Como a prática religiosa incluía ler a bíblia em casa e nos cultos dominicais, até os escravos eram alfabetizados, isso nos Estados Unidos, já no Brasil, o índice de analfabetismo aproximava-se de zero.
Apesar do isolamento e do atraso, as ideias revolucionárias chegaram ao Brasil, mas geralmente de forma clandestina, em publicações contrabandeadas ou reuniões de sociedades secretas, como a maçonaria.
O acesso às novidades pelas camadas mais pobres da população era a prova de que a colônia brasileira, sem universidades, sem livros, sem jornais ou comunicações regulares, acompanhava atentamente os acontecimentos na Europa. A antiga América portuguesa seria sacudida pelo vendaval das novas ideias que varria o mundo.
Um novo país nascia da tempestade.
Os sonhos dos brasileiros de 1822 eram grandiosos. Queriam libertar-se de três séculos de dependência de Portugal e erguer na América um vasto império.
Quem observasse o Brasil nessa época, teria razões de sobra para duvidar da sua viabilidade como país. Às vésperas do Grito do Ipiranga, o Brasil tinha tudo para dar errado. De cada três brasileiros, dois eram escravos, negros forros, mulatos, índios ou mestiços. Era uma população pobre e carente de tudo. O medo de uma rebelião escrava pairava como pesadelo para uma minoria branca. Os analfabetos somavam mais de 90% dos habitantes. Os ricos, embora muito ricos, eram poucos e, em sua maioria, ignorantes.
Á beira da falência, o novo país não tinha exércitos, navios, oficiais, armas ou munição para sustentar a guerra pela sua independência, que se pronunciava longa, cara e desgastante. Em 1822, na Bahia, campo de batalha decisivo na guerra, o pagamento do soldo dos oficiais e soldados estava atrasado dois meses por falta de dinheiro nos cofres da província. Os canhões, sem munição, não funcionavam. Os soldados andavam descalços e portavam espingardas de matar passarinho.
"À primeira vista, as possibilidades de sucesso pareciam muito remotas: o tesouro estava vazio e o país, dividido, enquanto Portugal contraía empréstimos e aumentava suas forças com navios e homens" escreveu Braian Vale. "Seria uma questão de tempo até os brasileiros serem subjugados. Apenas assumindo o comando dos mares, eles poderiam cortar as rotas de suprimentos portuguesas, expulsar as tropas e assegurar a independência do território. Mas como? O Brasil não tinha Marinha de Guerra, navios ou suprimentos nem oficiais ou marinheiros confiáveis."
O novo país tinha tudo por fazer e estava cercado de ameaças por todos os lados.
D. Pedro, em carta à seu Pai, disse: "Peço a Vossa Majestade, por tudo quanto há de mais sagrado, me queira dispensar deste emprego que seguramente me matará pelos contínuos e horrorosos painéis que tenho, uns já a vista, e outros muito piores para o futuro."
O novo país já nascia endividado (empréstimos internacionais) e assim permaneceria pelos dois séculos seguintes.
O Brasil precisava economizar cada centavo das suas combalidas economias e então o príncipe tomou medidas drásticas de contenção das despesas domésticas, e cortando seu próprio salário.
As divergências regionais e as tensões sociais foram sufocadas a custa de guerras, prisões, exílios e perseguições. Foi esse o caminho longo e penoso, repleto de incertezas, sangue e sofrimento, que o Brasil trilhou para assegurar a sua independência.
Agora, ao meu ver, por isso se torna tão fácil falar do Brasil, quando se tem tão pouco conhecimento. Eu por exemplo, não tinha conhecimento de nada disso, ou quase nada.
Antes de tudo, é preciso conhecer o contexto histórico das coisas, por isso comecei falando da Revolução Francesa, e não diretamente do Brasil de 1822.
Talvez os norte-americanos estejam na nossa frente por acreditar na inversão da pirâmide do poder, já que é de pensamento 'baixo' de um brasileiro dizer que nunca podemos/conseguiremos ser superior aquele que já está a certo grau de poder, o povo norte-americano acreditou nisso, e tudo provém de revoluções, como bem dá pra perceber, e acreditaram tanto que não precisavam de um rei, quando o tinham. Inverteram os papéis, decidiram eles mesmo ter o poder de escolha (votação).
Os EUA estavam muito a frente naquela época, e ainda hoje, por além de se preocupar com guerras, preocupavam-se com a saúde do povo, enquanto o Brasil preocupava-se com a guerra. Aconteceram epidemias, e o Brasil continuava sem dinheiro, nem pra guerra.
Então penso que o Brasil é o que é, não pelas razões de hoje, mas pelo passado que teve. E a tecnologia dos EUA vem de tudo isso, do passado dele também, do poder de solução. Não adianta julgarmos o Brasil hoje, se no passado ele deu tudo pra dar errado, e ainda assim conseguiu sua independência, conseguiu se tornar o novo país.
nada se perde, nada se cria, tudo se transforma." O verdadeiro autor da frase, na verdade, é o filósofo grego Anaxágoras de Clozômenas. Mas, "tudo que é sólido desmancha no ar", como diria Karl Marx.
Durante muito tempo, tudo isso funcionou apenas como teoria (de não precisar de rei, necessariamente), intensamente discutida nos salões e cafés parisienses. Seria possível aplicar essa teoria ao mundo moderno para governar sociedades maiores e mais complexas, e coube aos norte-americanos demonstrar que sim, era possível inverter a pirâmide do poder. A partir dali, todo poder emanaria do povo (por meio de eleições). A figura do rei se tornava desnecessária, então.
Tudo mudou no saneamento e na medicina. A criação das primeiras polícias sanitárias na Europa e a descoberta da vacina contra a varíola conseguiram controlar as epidemias que até então dizimavam grande parte da população. A redução da mortalidade pelo controle das doenças, combinada com novas técnicas agrícolas, que aumentaram a oferta de alimentos na Europa, produziu uma revolução demográfica no continente. A população da França, por exemplo, mais do que dobrou - o que significa mais gente para os levantes revolucionários nas ruas e também mais carne para os canhões das guerras.
Com o uso da tecnologia a vapor, os ingleses conseguiram multiplicar essa produção em escala exponencial nos primeiros anos. Em menos de um século, o volume de comércio nos portos de Londres triplicou.
Teve impactos gigantescos nos transportes e na comunicação também. Uma viagem entre Inglaterra e Austrália, que demorava 6 meses na época dos barcos a vela, foi reduzida para cinco semanas com a introdução dos navios a vapor. Até 1810, um pombo-correio demorava uma semana para levar uma carta de Londres a Paris. Com os barcos a vapor, o tempo diminuiu para dois dias.
A maré das inovações na Europa e nos Estados Unidos, chegaria com algum atraso ao Brasil... aqui, a educação limitava-se aos níveis mais básicos e a uma minoria muito restrita da população. De cada cem brasileiros, menos de dez sabiam ler e escrever. O deputado piauiense Domingos da Conceição reclamava do estado de ignorância em que viviam mergulhados os 70.000 habitantes de sua província, todos analfabetos. "São 70.000 cegos que desejam a luz da instrução pública." O salário de um professor equivalia a um terço do que se pagava a um feitor de escravos nas fazendas.
Em uma situação bem diferente dos Estados Unidos, onde a cultura havia criado uma colônia alfabetizada, empreendedora, habituada a participar das decisões comunitárias e a se manter bem informada sobre as novidades que chegavam da Europa.
A circulação dos jornais, nos Estados Unidos, chegava a três milhões de exemplares por ano, e no Brasil, isso só aconteceu dois séculos mais tarde.
Como a prática religiosa incluía ler a bíblia em casa e nos cultos dominicais, até os escravos eram alfabetizados, isso nos Estados Unidos, já no Brasil, o índice de analfabetismo aproximava-se de zero.
Apesar do isolamento e do atraso, as ideias revolucionárias chegaram ao Brasil, mas geralmente de forma clandestina, em publicações contrabandeadas ou reuniões de sociedades secretas, como a maçonaria.
O acesso às novidades pelas camadas mais pobres da população era a prova de que a colônia brasileira, sem universidades, sem livros, sem jornais ou comunicações regulares, acompanhava atentamente os acontecimentos na Europa. A antiga América portuguesa seria sacudida pelo vendaval das novas ideias que varria o mundo.
Um novo país nascia da tempestade.
Os sonhos dos brasileiros de 1822 eram grandiosos. Queriam libertar-se de três séculos de dependência de Portugal e erguer na América um vasto império.
Quem observasse o Brasil nessa época, teria razões de sobra para duvidar da sua viabilidade como país. Às vésperas do Grito do Ipiranga, o Brasil tinha tudo para dar errado. De cada três brasileiros, dois eram escravos, negros forros, mulatos, índios ou mestiços. Era uma população pobre e carente de tudo. O medo de uma rebelião escrava pairava como pesadelo para uma minoria branca. Os analfabetos somavam mais de 90% dos habitantes. Os ricos, embora muito ricos, eram poucos e, em sua maioria, ignorantes.
Á beira da falência, o novo país não tinha exércitos, navios, oficiais, armas ou munição para sustentar a guerra pela sua independência, que se pronunciava longa, cara e desgastante. Em 1822, na Bahia, campo de batalha decisivo na guerra, o pagamento do soldo dos oficiais e soldados estava atrasado dois meses por falta de dinheiro nos cofres da província. Os canhões, sem munição, não funcionavam. Os soldados andavam descalços e portavam espingardas de matar passarinho.
"À primeira vista, as possibilidades de sucesso pareciam muito remotas: o tesouro estava vazio e o país, dividido, enquanto Portugal contraía empréstimos e aumentava suas forças com navios e homens" escreveu Braian Vale. "Seria uma questão de tempo até os brasileiros serem subjugados. Apenas assumindo o comando dos mares, eles poderiam cortar as rotas de suprimentos portuguesas, expulsar as tropas e assegurar a independência do território. Mas como? O Brasil não tinha Marinha de Guerra, navios ou suprimentos nem oficiais ou marinheiros confiáveis."
O novo país tinha tudo por fazer e estava cercado de ameaças por todos os lados.
D. Pedro, em carta à seu Pai, disse: "Peço a Vossa Majestade, por tudo quanto há de mais sagrado, me queira dispensar deste emprego que seguramente me matará pelos contínuos e horrorosos painéis que tenho, uns já a vista, e outros muito piores para o futuro."
O novo país já nascia endividado (empréstimos internacionais) e assim permaneceria pelos dois séculos seguintes.
O Brasil precisava economizar cada centavo das suas combalidas economias e então o príncipe tomou medidas drásticas de contenção das despesas domésticas, e cortando seu próprio salário.
As divergências regionais e as tensões sociais foram sufocadas a custa de guerras, prisões, exílios e perseguições. Foi esse o caminho longo e penoso, repleto de incertezas, sangue e sofrimento, que o Brasil trilhou para assegurar a sua independência.
Agora, ao meu ver, por isso se torna tão fácil falar do Brasil, quando se tem tão pouco conhecimento. Eu por exemplo, não tinha conhecimento de nada disso, ou quase nada.
Antes de tudo, é preciso conhecer o contexto histórico das coisas, por isso comecei falando da Revolução Francesa, e não diretamente do Brasil de 1822.
Talvez os norte-americanos estejam na nossa frente por acreditar na inversão da pirâmide do poder, já que é de pensamento 'baixo' de um brasileiro dizer que nunca podemos/conseguiremos ser superior aquele que já está a certo grau de poder, o povo norte-americano acreditou nisso, e tudo provém de revoluções, como bem dá pra perceber, e acreditaram tanto que não precisavam de um rei, quando o tinham. Inverteram os papéis, decidiram eles mesmo ter o poder de escolha (votação).
Os EUA estavam muito a frente naquela época, e ainda hoje, por além de se preocupar com guerras, preocupavam-se com a saúde do povo, enquanto o Brasil preocupava-se com a guerra. Aconteceram epidemias, e o Brasil continuava sem dinheiro, nem pra guerra.
Então penso que o Brasil é o que é, não pelas razões de hoje, mas pelo passado que teve. E a tecnologia dos EUA vem de tudo isso, do passado dele também, do poder de solução. Não adianta julgarmos o Brasil hoje, se no passado ele deu tudo pra dar errado, e ainda assim conseguiu sua independência, conseguiu se tornar o novo país.



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