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Maços Rotineiros.

  O café quente como uma boa pedida, mas cigarros como rotina, assim era a vida de Paulo. Paulo Maço. E nem preciso, nem quero, nem devo, explicar o porquê.
 São os cigarros, aliás, cigarro é pouco, são os maços quem fazem a rotina de Paulo. Aos olhos de quem o vê, ele está completamente mergulhado em solidão, só que pra ele não, não existe solidão, tem seus maços como companhia.
 Talvez o café o faça ficar acordado durante a noite, precisava digitalizar documentos, e claro, fumar. Seu café era preto, quente, sem muito açúcar, um tanto amargo, pra quem o provasse, e claro que ninguém o provaria, ninguém se atreveria a mexer no café de Paulo Maço.
 Paulo estava sozinho a um bom tempo, sozinho de tudo, de clientes, de família, de amigos, e morava sozinho.
 Como dizem, nossa casa é o reflexo de quem somos, e a de Paulo não era diferente, cheirava a cigarro, vez o outra o cheiro de café pairava janela a fora. Estava tão magro... mas de que importa, se o cigarro o sacia, somente o cigarro e o café quente bastavam pra ele, e compensava toda a comida que estava em falta em seu estômago faminto, faminto de mais cigarro, claro.
 É rico de nascença e leva a vida comum, na adolescência saía com sua turma a noite, sempre descontraído, e então o cigarro tornou-se algo precoce, todos do grupo fumavam, e isso acabou influenciando muito, tanto que chega a ser incontrolável persistindo até hoje, já com seus cabelos grisalhos.
 Certa vez, recebeu uma mensagem no celular: "Chegou, amor?". Era engano. Que amor tinha Paulo? Nem amor por ele próprio tinha, esqueceu de amá-lo, esqueceu de ter noites tranquilas de sono, esqueceu de cultivar seus clientes, esqueceu de si, só não dos cigarros. Paulo ficou lendo a mensagem, várias vezes, e sentiu falta de amor. Mas pra que ele queria o amor? Não serviria pra nada. Ele é convencido de que não precisa ser feliz pra viver, mas todos os outros precisam, caso contrário tudo desmorona. E ele gosta exatamente de viver assim, - se é que pode-se chamar de viver - e esqueceu também da felicidade. O que era ser feliz pra Paulo? Nem mesmo ele sabia.
 Começou a fazer perguntas a si mesmo, que não tinham respostas, pra ele nada importava, ora, eram coisas mínimas perto de seus maços e seus cafés. 
 Acordou tarde nessa sexta-feira, por ter ficado boa parte da madrugada pensando, e pensou também em quanto tempo não pensava;  resolveu não ir trabalhar. Lembrou-se de um sonho, que teve esta noite, uma mulher o levando café na cama, de manhã cedo. Pensou novamente... queria alguém.
 Cigarro. Isqueiro. Escritório. Cigarro. Café quente. Pensar. Cigarro. Isqueiro. Cafeteria. Mesa. Café quente. E desta vez, pão de queijo.
 E passou boa parte do tempo, na cafeteria, vendo a fumaçinha de seu café indo-se. Seu cérebro só funcionava para o escritório, sua habilidade de pensar em si se fora, mas agora voltou, e o café esfriou. Pediu outro. Café não era café pra ele, se não fosse quente, sempre pedia 'café quente' e não apenas café, tinha que ser quente, ele já disse.
 Maço. 
 Isqueiro... ah, era proibido fumar ali. 
 Ao sair, esbarrou em uma mulher, olhou pra trás, ela usava um vestido vermelho, curto, aparentava ter um belo bumbum. A quanto tempo não reparava as mulheres... E foi ela que ele imaginou servindo seu café quente na cama, e junto disso já imaginou fantasias.
 Do lado de fora, ele olhava ela, por entre aquelas janelas de vidro. Estava sozinha também. Pediu café e pão de queijo também. Saiu apressadamente para fumar, também. Fumar. Uma mulher que fumava e tomava café... hmm.
 Aproximou-se dela e pediu seu isqueiro emprestado. Ela nem o reparou. Ele começou com sua conversa... E ela terminou servindo o café de Paulo Maço, na cama.
 E de uma xícara, passou pra duas. Agora imagine só, o quanto de maços rotineiros triplicou.

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