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A história do bêbado [in]comum.

 Era uma vez a história de um bêbado que era incomum. Não, não é bem assim!
 Mas a verdade é que ele estava desempregado e a noite saía pra encher a cara.
 Tinha um filho de 1 ano e pouco, era loirinho, olhos claros, e lindo. Tinha uma esposa ruiva e cheia de sardinhas, de olhos claros também, que no momento era a única que sustentava a casa, aliás, só moravam os três.
 Ele já estava desempregado a um tempo, e desde então só ficou em casa, passava seu tempo assistindo televisão e não fazendo nada demais, até que cansou e resolveu sair. Saiu numa tarde comum dessas, dia de semana, sol forte, entrou no primeiro bar que viu e por ali ficou horas, chegou em casa tarde, sem dar explicações, até que isso perdurou; saía de casa final de tarde, já não passava tanto tempo com a esposa, inclusive, eles nem se falavam muito, era mais amizade do que casamento, ela nunca sabia ao certo do que ele gostava e sempre errava no molho de macarrão, colocando algo que ele não gostava.
 Mas ele tinha seus motivos pra tudo, acredite.
 A primeira pessoa que insinuava que ele estava bebendo era a sua esposa, claro. Mas achava estranho ainda assim, pois ele não chegava com bafo de cachaça. Será que ele a traía? Ela começou a pensar que sim.
 A esposa passava por momentos difíceis no trabalho, não tinha mais tempo nem pra pensar em si mesma, insinuava tanta coisa sobre ele, que no final, nos pensamentos dela, era tudo verdade. A essa altura já estava ficando louca, louca de verdade. Tanto que começou a se entregar a outros homens, tinha casos com os homens da empresa, não educava direito o filho. Com tudo isso começou a entrar em depressão, do tipo que chora toda noite, que não conversa, que não sorri, que o mundo acabou.

A única coisa que ninguém entende era porque ele não conversava com ela sobre o que estava acontecendo com ele, até porque seus amigos de bar sabiam de tudo, de toda sua história de vida.
 Mas é verdade sim que ela não entenderia, não tinha tempo para conversas, para outros planos de vida.
 Mas o motivo da demissão dele foi algo totalmente a ver com o bar. Faltava pouco pra ele terminar o curso de direito, ia passar seus dias trancado em um escritório, não teria tempo para o filho e nem pra fazer nada do que gostava. O emprego novo era num escritório, até que então ele viu que não queria nada daquilo e daí sua vida seguiu outro rumo.
 Pode-se dizer que agora ele estava feliz, como nunca esteve. Agora teria tempo pra seu filho, mas sabia que seu casamento não andaria pra frente, sabia que a esposa traía. Traía somente ao filho deles. Na verdade ele não se sentia traído pela esposa, pois não tinha mais sentimentos por ela.
 Mas parou de pensar um pouco em tudo e pensou somente nele. Ele tava vivendo um sentimento bom, sendo alcoólatra ou não, traindo a mulher ou não. Era assim que ele queria viver agora.
 A família já falava também, dos seus maus modos. Maus modos??? E encontrar a verdadeira felicidade é mau modo? Ah sim, para encontrar a verdadeira felicidade nada é fácil, nada vem fácil. Aliás, se não está fácil nem pro homem aranha, imagina pra ele!
 Esses dias conversando com um amigo de bar, lembrou da esposa, de como era no início do casamento, o quão ansioso estavam pela espera do primeiro filho, que nome escolheriam, os preparativos pro quarto. Realmente ele também já fora feliz no casamento, mas casou com uma mulher exigente, que vivia para o trabalho, que se importava demais com o padrão de vida e com o que a alta classe iria pensar dela o que quer que fizesse. Naquela noite ele chegou em casa, como sempre ela já estava dormindo, reparou-a, percebeu como emagreceu um pouco, estava com a maquiagem borrada, como de costume, chorara a noite. Acariciou seus cabelos, deu um sorriso. Estava disposto a reconquistá-la novamente, a resgatar toda aquela felicidade que tinham no início, e sabia que não seria tarefa fácil.
 Na manhã seguinte, ele, o bêbado, levantou-se ainda antes dela, foi na floricultura, estava fechada. Quando voltou, ela já havia saído.
 A noite, saiu mais cedo do bar, comprou um pequeno e simples arranjo de flor, com o dinheiro que ganhou no bar, e levou pra ela. Chegou faceiro em casa, ciente de que ela gostaria. 


Entrou pela porta e viu que tudo era calmaria, ela chegara cedo também, viu algumas garrafas de bebida alcoólica espalhadas pelo sofá, duas abertas pelo chão. No quarto, ela já estava deitava. Pôs então as flores na cômoda, que ficava ao lado dela. Queria ver sua mulher sorrir pra ele de novo, como queria...
 Mas parece que na manhã seguinte não foi bem assim, ele não teve o sorriso tão esperado. Ela acordou, viu aquelas flores e achou ridículo. Inclusive, xingou-o por ter dormido fora na noite passada, e que pra se redimir, trouxe as flores pra ela. Jogou as flores no chão e por ali deixou.
 Aos fins de semana ele não ia para o bar, brincava com seu filho, aproveitava todo o tempo com ele. Desta vez, tinha presenteado-o com um violão, o menino adorou, e ele passou horas rindo com o filho.

A esposa, já muito transtornada, exausta de tudo, sem paciência e agressiva, resolveu uma noite segui-lo, saber o porquê de agora ele ser tão feliz.Seguiu até o bar, esperou um tempo, acendeu um cigarro (agora ela fumava), continuou seguindo. Chegando no bar, esperou novamente um momento, deixou ele entrar, mas continuou dentro de seu carro para bem analisar as pessoas que por ali passavam. Não conhecia ninguém. Ao contrário do que esperava, não tinham muitas mulheres, e as que tinham não eram nada vulgares. Alguém bateu no seu vidro, ela abaixou um pouco trêmula, apenas convidaram ela para entrar e ouvir uma boa música. Aceitou.
 Ao entrar, depara-se com uma multidão de gente, mais a frente, avista seu 'marido'. Pra ela, uma grande surpresa. Se a vida já não era fácil, agora ficou ainda pior. Via seu marido rindo alegremente e feliz, cantando. Voltou correndo para o carro. Por sua mente passou o último domingo, em que ela via da sala o marido brincando com o filho no violão, lembrou das flores, pensou que ele realmente gostaria de reatar o casamento. Pensou na traição que ela o causou, pensou em suas noites de choro, em sua falta de tempo para conversa e o quanto se dedicava duro para o trabalho, e agora pensava que sua maior recompensa de toda essa vida era seu filho e seu marido, que não era nada do que ela pensava.
 Todas as noites que ele chegava bêbado em casa, era completamente bêbado de música, bêbado de cantar... Desde quando entrou no bar, e o pessoal o chamou para cantar, aceitou de primeira e descobriu sua grande paixão pela música, a partir daí começou a ser realmente feliz fazendo o que gostava. Foi preciso jogar tempo fora estudando direito, pra somente depois descobrir sua felicidade e fazer planos, e ter sonhos, e apenas querer fazer música.
 Ela tinha uma arma no carro, pensou em matá-lo caso visse ele com alguma amante saindo do bar. E não hesitou, matou-se ela própria, que aliás, já estava morta a muito tempo.
 Quem estava próximo ao carro, ouviu. Começou o tumulto. Quando chegou até ele, ele não soube explicar nada, ficou sem reação. O único motivo que passou pela cabeça, foi a depressão dela, e culpou-se. Perguntava-se várias vezes o que ela foi fazer ali, se tinha o seguido, se ouvira-o cantando...
 E assim acaba a história do homem que era bêbado por música, que nela encontrou sua felicidade. Uma felicidade que demorou anos para encontrá-la, valeu a pena.
 E depois dessa morte, será que ele continuará feliz?
 Eu espero que sim, porque não é fácil encontrar a felicidade todos os dias, não é fácil descobrir em que e  em quem está a felicidade. Um dia, uma hora, num ano distante, simplesmente acontece.

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