Depois da chegada do IML, depois do falatório baixar, é que soubemos a verdadeira causa da morte do seu Everaldo.
Meu Pai, que frequentava o mesmo barzinho que ele, pode me dizer se o que ouvi era mesmo verdade.
Seu Everaldo estava doente, seu rim tinha parado de bater, ele estava ciente disso e continuou vivendo assim.
No bar, pagava em torno de R$ 400, não só pra ele, ele pagava lanche para os outros, para os que tinham fome, para aqueles que não podiam pagar, pagava cerveja também, tudo em troca de companhia, de uma conversa, em troca de gastar seu dinheiro, aliás, já não tinha onde gastar mesmo.
Com a construção de um posto de gasolina aqui perto, o dono do bar teve que sair dali, ir para outro lugar, começar tudo de novo, ou seja, o bar de seu Everaldo tinha acabado. Onde ia tomar cerveja? Quem iria ajudar? Com quem iria conversar? Pra onde ia, se não, só ficar dentro de casa? Não tinha pra onde ir. Tinha sua casa, claro, mas era no bar que ele ria, que via as pessoas, que conversava.
O seu Everaldo era meio que manco, ele tinha uma perna mais curta que a outra, quando vim morar pra cá, tinha medo dele, achava que era doido, depois vi que não.
Na janela, estava sempre de cara triste.
Ah, aliás, quem o encontrou morto, enforcado, em cima do vaso sanitário e com a língua pra fora, não foi a mulher dele, foi sua filha. Ela tinha chegado do trabalho, viu que não tinha ninguém em casa, pegou suas coisas e foi tomar banho, ao abrir a porta... tcharam... lá estava seu Pai. Imagina o susto... eu imagino. Deve ter sido horrível, e ainda ter que esperar o IML, deixá-lo ali, do jeito que tava, se lembrar da cena todos os dias, se lembrar do motivo.
Talvez assim ele realmente descanse, encontre algo o que fazer, onde estiver. Vai sentir falta do bar, assim como na primeira semana sem bar já foi difícil.
Ele tinha dois filhos, um casal.
A síndica aqui já mandou comprar umas rodelas daquelas de flor, alguns vizinhos também já compraram. Fiquei sabendo que a família dele não é deste Estado.
Aquele banheiro nunca será o mesmo, aquela janela nunca será a mesma.
E aquele homem da janela do terceiro andar, de 60 e poucos anos, já não estará mais por aqui mancando, sabe-se lá onde ele estiver... quem sabe continue em sua janela sem que ninguém o veja, quem sabe ainda sentiremos o cheiro do cigarro vindo da janela dele, quem sabe, sua alma estará ainda naquele banheiro, quem sabe achará o novo bar, do antigo dono, e aí começará a beber lá.
Meu Pai, que frequentava o mesmo barzinho que ele, pode me dizer se o que ouvi era mesmo verdade.
Seu Everaldo estava doente, seu rim tinha parado de bater, ele estava ciente disso e continuou vivendo assim.
No bar, pagava em torno de R$ 400, não só pra ele, ele pagava lanche para os outros, para os que tinham fome, para aqueles que não podiam pagar, pagava cerveja também, tudo em troca de companhia, de uma conversa, em troca de gastar seu dinheiro, aliás, já não tinha onde gastar mesmo.
Com a construção de um posto de gasolina aqui perto, o dono do bar teve que sair dali, ir para outro lugar, começar tudo de novo, ou seja, o bar de seu Everaldo tinha acabado. Onde ia tomar cerveja? Quem iria ajudar? Com quem iria conversar? Pra onde ia, se não, só ficar dentro de casa? Não tinha pra onde ir. Tinha sua casa, claro, mas era no bar que ele ria, que via as pessoas, que conversava.
O seu Everaldo era meio que manco, ele tinha uma perna mais curta que a outra, quando vim morar pra cá, tinha medo dele, achava que era doido, depois vi que não.
Na janela, estava sempre de cara triste.
Ah, aliás, quem o encontrou morto, enforcado, em cima do vaso sanitário e com a língua pra fora, não foi a mulher dele, foi sua filha. Ela tinha chegado do trabalho, viu que não tinha ninguém em casa, pegou suas coisas e foi tomar banho, ao abrir a porta... tcharam... lá estava seu Pai. Imagina o susto... eu imagino. Deve ter sido horrível, e ainda ter que esperar o IML, deixá-lo ali, do jeito que tava, se lembrar da cena todos os dias, se lembrar do motivo.
Talvez assim ele realmente descanse, encontre algo o que fazer, onde estiver. Vai sentir falta do bar, assim como na primeira semana sem bar já foi difícil.
Ele tinha dois filhos, um casal.
A síndica aqui já mandou comprar umas rodelas daquelas de flor, alguns vizinhos também já compraram. Fiquei sabendo que a família dele não é deste Estado.
Aquele banheiro nunca será o mesmo, aquela janela nunca será a mesma.
E aquele homem da janela do terceiro andar, de 60 e poucos anos, já não estará mais por aqui mancando, sabe-se lá onde ele estiver... quem sabe continue em sua janela sem que ninguém o veja, quem sabe ainda sentiremos o cheiro do cigarro vindo da janela dele, quem sabe, sua alma estará ainda naquele banheiro, quem sabe achará o novo bar, do antigo dono, e aí começará a beber lá.
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