Somos nossas lembranças. Constituímo-nos por nossas memórias. Sou aquele lençol pendurado no varal fingindo ser a cortina de um teatro. Sou aquele suco de folha de limão distribuído para os espectadores, que se sentavam na grama mentalizando estar sobre cadeiras confortáveis. Sou aquela caminhada na ponte que hoje é só um cartão postal. Sou a historinha que meu pai contava antes de eu dormir sobre barcos e navegações.
Somos formados por aquilo que lembramos. Agimos a partir das nossas memórias. Parei de comer meleca de nariz quando passei a lembrar da minha mãe dizendo que isso não é legal. Tive certeza de que queria estudar muito e sempre quando pensava nos dias tão infinitos das descobertas incríveis em sala de aula. E tive certeza, também, da professora que não queria me tornar lembrando dos detalhes tão pouco incríveis de outros momentos.
As lembranças de nossas histórias e de nossas raízes podem explicar, então, muitas de nossas ações e escolhas. Talvez eu tenha me tornado professora porque sempre brinquei de teatro naquele quintal ou de escolinha naquela sala cheia de amigos, que fingiam ser meus alunos. Se você me disser que seu sonho é ser jogador de futebol, é muito provável que eu já saiba um pouco sobre suas memórias de infância: qualquer objeto rolante se tornava uma bola, qualquer amigo na frente virava um craque como você. Se você me disser que seu sonho é ser um grande cozinheiro, é muito provável que eu adivinhe um pouco das suas lembranças: seu olhar atento à sua mãe mexendo em talheres, panelas, cortando verduras sem parar, mais parecendo dançar, mãos e movimentos suaves.
Incrível seria se pudéssemos, no primeiro encontro, conhecer as memórias uns dos outros. Ao invés de trocarmos Facebook, ao invés de conversarmos sobre qualquer coisa, pudéssemos contar da rotina de ficar todos os dias na frente da casa da cidade do interior olhando o “ovimento”, pois nem a palavra “movimento” se conseguia pronunciar ainda. Ou daquela sincera amizade construída dia a dia com os bêbados do bar da frente de casa, que sabiam quais eram os dias da semana que a mãe permitia a ingestão de doces. Passaríamos a conhecer mais uns aos outros, e a conhecermos o que realmente interessa e o que, muitas vezes, fica perdido bem no fundo de nós mesmos: a nossa essência. E essa essência está lá, bem longe e tão perto, nas nossas raízes, nas memórias boas ou ruins, nas vivências muito ou pouco engrandecedoras.
Assim, olhando para o outro e tendo a certeza de que ele é recheado de momentos, de lembranças, passamos a compreender e a valorizar as diferenças, as falhas, os avanços – e a entender que muitas destas memórias, por mais infelizes que sejam, não devem ser esquecidas, mas encaradas sob a perspectiva da impulsão. (Re) conhecendo nossa própria essência passaremos a observar e, principalmente, a nos importar com a essência do outro, este que está sentado ao seu lado.
Amanda Machado Chraim
Somos formados por aquilo que lembramos. Agimos a partir das nossas memórias. Parei de comer meleca de nariz quando passei a lembrar da minha mãe dizendo que isso não é legal. Tive certeza de que queria estudar muito e sempre quando pensava nos dias tão infinitos das descobertas incríveis em sala de aula. E tive certeza, também, da professora que não queria me tornar lembrando dos detalhes tão pouco incríveis de outros momentos.
As lembranças de nossas histórias e de nossas raízes podem explicar, então, muitas de nossas ações e escolhas. Talvez eu tenha me tornado professora porque sempre brinquei de teatro naquele quintal ou de escolinha naquela sala cheia de amigos, que fingiam ser meus alunos. Se você me disser que seu sonho é ser jogador de futebol, é muito provável que eu já saiba um pouco sobre suas memórias de infância: qualquer objeto rolante se tornava uma bola, qualquer amigo na frente virava um craque como você. Se você me disser que seu sonho é ser um grande cozinheiro, é muito provável que eu adivinhe um pouco das suas lembranças: seu olhar atento à sua mãe mexendo em talheres, panelas, cortando verduras sem parar, mais parecendo dançar, mãos e movimentos suaves.
Incrível seria se pudéssemos, no primeiro encontro, conhecer as memórias uns dos outros. Ao invés de trocarmos Facebook, ao invés de conversarmos sobre qualquer coisa, pudéssemos contar da rotina de ficar todos os dias na frente da casa da cidade do interior olhando o “ovimento”, pois nem a palavra “movimento” se conseguia pronunciar ainda. Ou daquela sincera amizade construída dia a dia com os bêbados do bar da frente de casa, que sabiam quais eram os dias da semana que a mãe permitia a ingestão de doces. Passaríamos a conhecer mais uns aos outros, e a conhecermos o que realmente interessa e o que, muitas vezes, fica perdido bem no fundo de nós mesmos: a nossa essência. E essa essência está lá, bem longe e tão perto, nas nossas raízes, nas memórias boas ou ruins, nas vivências muito ou pouco engrandecedoras.
Assim, olhando para o outro e tendo a certeza de que ele é recheado de momentos, de lembranças, passamos a compreender e a valorizar as diferenças, as falhas, os avanços – e a entender que muitas destas memórias, por mais infelizes que sejam, não devem ser esquecidas, mas encaradas sob a perspectiva da impulsão. (Re) conhecendo nossa própria essência passaremos a observar e, principalmente, a nos importar com a essência do outro, este que está sentado ao seu lado.
Amanda Machado Chraim
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