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Jardim das noivas.

 Éramos em quatro, estava frio e estávamos correndo, eu não lembro direito o porque, mas eu corria muito, já sem fôlego, corríamos e fugíamos de algo que eu já não lembrava mais o que era. O medo nos dominou e sei que passou tanta coisa pela cabeça de cada um.
 Começou a chover, ficou mais frio, fiquei com mais medo. Minhas lágrimas se misturaram com as gotas da chuva, mas agora já estávamos perto de casa, faríamos um caminho diferente, mas um deles disse que seria mais rápido, só precisávamos encontrar a entrada, subir no matagal e chegar até nossas casas.
 Estávamos quase perto e começamos a ver vultos, vultos que passavam correndo por nós, desesperados e com tanto medo quanto era o nosso medo.
 Lembro que naquele trecho da estrada já aconteceram vários acidentes, a maioria de casais recém casados, ou a caminho da igreja, parecia algo com superstição, mas pra mim não passava de coincidências, pois havia mesmo uma igreja perto dali.
 Começamos então a ouvir vozes, que se misturavam e faziam barulho, um barulho que ninguém entendia. Eu não tinha percebido mas só tinha eu de mulher ali, os outros três eram homens, fiquei um pouco mais calma, então. As vozes me irritavam, agora que estávamos mais perto do matagal, as vezes berravam dentro de nós, dentro de nossos ouvidos, pareciam bruxas.
 Enfim, chegamos na entrada do matagal e podemos avistar algo que parecia um moinho de vento e ao mesmo tempo vestidos que voavam, voavam e voavam, era indistinguível isso. Ventou forte e subiu areia, que começou a arder nossos olhos, e ao abrirmos eles, nos deparamos com mulheres nos olhando, mulheres belíssimas, finas, pele de porcelana, mas tristes, e com as mãos juntas em volta da barriga.
 Olhei para os meninos, eles estavam encantados, olhei pra elas, estavam encantadas por eles. Ventou forte de novo, jogando muita areia em nossos rostos, aquelas vozes ecoaram de novo, elas berravam algo que não se entendia, rodavam uma atrás da outra, com tamanha rapidez que só se viam os vestidos. Nós corremos, o vento parou, não chovia mais, nós paramos também, e ao olhar em volta, vimos um cemitério, aquilo era um cemitério, e eu sabia que elas estavam mortas, reconheci algumas pelos rostos que já apareceram nos jornais, anunciando a morte delas. Mas para eles, elas pareciam reais.
 Eram cruzes de madeira e seus nomes grifados, não sei bem se haviam corpos enterrados ali. Foi então que do nada reapareceram, reapareceram e rodopiaram os meninos, com um sorriso deslumbrante. Então berrei "vamos, vamos!", e corremos novamente. Elas ficaram bufando comigo. Olhei pra trás, estavam nos seguindo, correndo muito rapidamente. Estavam vestidas de noiva ainda.
 Naquela corrida novamente fugitiva, lembrei que já haviam comentado daquele lugar, que quem passasse além da entrada do matagal, ficava com medo de retornar, falavam algo de noivas, de jardim, enfim, já não raciocinava mais.
 Quando me dei conta e comecei a procurar os meninos, já não mais encontrei, as noivas já não me seguiam mais. Corri, corri, corri, e corri muito, ao perceber que uma ainda estava atrás de mim, e começaram a aparecer outras, e então a cidade apareceu, e elas desapareceram.


  Depois fiquei sabendo que elas machucaram os meninos, estavam famintas. Famintas de homem. Apareceram em casa arranhados, machucados e como um bebê aprendendo a engatinhar, estavam exaustos.
 Mas bom, agora eu já sabia que elas não ultrapassavam o limite da cidade, e que cultivavam o lugar que elas ficavam, que aliás, mais parecia um jardim, o jardim das noivas.
 Queríamos voltar lá, e assim fizemos. Voltamos num dia de frio, sem chuva dessa vez, mas ventava muito. Chegando perto, já ouvíamos o uivo delas, sabiam que estavam chegando alguém, mas não sabiam que tínhamos um plano.
 Na entrada do matagal, começaram a rodopiar e nos receberam da mesma forma como da primeira vez, todas nos olhando, com as mãos sobre a barriga, e rodopiaram. Foi então que corremos pelo matagal, mesmo com a força do vento, e logo elas vieram atrás. Corremos até a chegada da cidade, elas não poderiam ultrapassar aquele limite.
 Na entrada da cidade, ficamos nós olhando pra elas, e elas na última parte do matagal, rugindo, parecendo bruxas doidas pelo mal. Então avançamos rapidamente em frente delas, corremos até elas, e agora, elas corriam na nossa frente, de repente, não mais corriam, só se via seus vestidos rodopiarem, indo junto ao vento para o seu jardim, e lá, desapareceram.
 Colocamos fogo em cada cruz enfiada naquela terra, colocamos fogo na terra delas, onde cada uma deveria estar, destruímos seu jardim. E elas começaram a sair de seus lugares, muito lentamente, da mesma forma que os meninos chegaram em casa da última vez, engatinhando como bebês. Estendiam a mão para nós, como quem pede ajuda, o grito delas estava fraco, estavam roucas, cansadas, destruídas, m o r t a s .
 Saímos de lá com ar de missão cumprida. Mas eu não me atreveria a voltar lá novamente. Ninguém se atreveria.
 Depois lembro que corri, corri e corri, e agora era só eu, e enfim, despertei desse sonho estranho e sem sentido, está na hora de trabalhar.

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