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Carta de uma jovem homicida.

Mãe,
hoje eu acordei, tomei café, comi aquele bolo que a senhora fez, com calda de chocolate e aquela cobertura de coco que eu adoro.
Na hora de sair pra trabalhar eu não quis ir, voltei pra cama e pensei em tudo, Mãe. Pensei e vi que não dava mais pra viver fingindo. Eu não sei o que é ser feliz, eu não sei como ser uma pessoa feliz e contente na vida.
Então eu me homicidei, Mãe! Não foi suicídio, porque eu não me matei, quem me matou foi o amor, Mãe, o amor! E eu queria que todos soubessem que o amor mata, que ele corrói por dentro, mas que por fora, finge ser essa beleza que ele não é. A minha vida foi só fingimento, e veja só, até o amor é fingido. Se é que eu posso chamar isso de vida, eu nunca tive uma vida-vida.
Mãe, eu sei que vai doer quando a senhora me ver morta, mas eu agradeço hoje por cada caldinho de feijão que a senhora fazia, por ficar soprando os meus joelhos quando eu caía de bicicleta, por toda cobertura de coco, por toda dedicação e todo carinho que a senhora me deu. Eu sei que eu era um peso na tua vida também, Mãe, que você sempre tinha que vir me acalentar.
Olha, Mãe, diga ao Richard que eu sempre o amei, apesar de não estarmos mais juntos a muito tempo, apesar de todo o mal que ele me fez, eu não culpo ele por isso, Mãe, e nem a senhora deveria culpá-lo, eu só agradeço por ele ter me dado algum passatempo diante dessa "vida", que era amar ele. A maior culpa nisso tudo, o tempo vai se encarregar de trazer, bem no peito dele, como um tiro. E morrendo eu tirei o Richard de dentro de mim, Mãe, e agora serei feliz, pois tirarei a dor de mim, essa é a única forma que encontrei de ser feliz. Mas Mãe, apesar de eu ter acabado com o meu coração, eu te levo nos meus pensamentos.
Mãe, será que foi eu quem matou o amor?
Mãe, avisa também à Roberta e a Heloísa, que eu sempre vou pensar nelas, que elas foram as únicas amigas que eu tive essa vida toda, apesar de que só conheci elas na faculdade. Diz pra Helô que tudo vai passar, que o Pai dela vai sair dessa, e que eu vou rezar e tentar fazer que tudo dê certo na família dela.
Mãe, não esquece de avisar o pessoal do trabalho, e cancelar minha matrícula na facul!
E quanto a você, Mãe... Eu te amo, Mãe! Desculpa por ter feito isso com você, arruma tuas coisas e vai pra casa da tia, vai viajar Mãe, como você sempre quis e agora pode fazer.
Me desculpa por ter quebrado o vaso que o vô te deu, aquele dia, desculpa por eu ser isso, desculpa por eu ser uma pessoa difícil de lidar, por falar mais alto que você, por não te respeitar, por nunca ter te agradecido por nada, por muitas vezes te chamar mais pelo nome do que por "Mãe".
Eu me arrependo de tudo isso, Mãe! E não dá mais pra voltar atrás, já é muito tarde pra eu mudar minha vida, já que estou presa ao meu passado.
Mas sobre a vida, Mãe, eu tenho que dizer uma coisa: ela passa! E nunca dá pra voltar atrás, não dá pra simplesmente apagar o que já foi feito, e eu queria apagar, apagar tudo! A vida nos prega peças, e tira tudo do lugar, a vida bagunça tudo, ou quem sabe, a vida seja a própria bagunça. Os sentimentos nos sufocam. A saudade nos sufoca. A mentira. A raiva. Tudo nessa vida é sufocante.
O amor machuca, Mãe, ele é disfarçado, ele corta mas não sangra, ele mata a gente, e a gente finge estar viva, ele nos cega e mesmo assim enxergamos, ele tapa nossos ouvidos mas escutamos, ele nos sufoca a garganta e ainda assim conseguimos falar. Muitas vezes o amor é uma criança solitária, inocente, que tudo faz e tudo sente, tudo suporta e tudo aguenta, pelo simples medo da perda, e ainda assim, temos a ousadia de amar, amar cada dia mais, Mãe.
E quanto a tristeza: ela não acaba!
Eu vi a chuva pela última vez, Mãe! Chovia bonito e bem forte, e eu sorri. Eu vi as árvores, aqui da varanda, eu passei a mão pelas suas flores, eu vi o Seu João abrindo a padaria lá embaixo; eu voltei correndo chorando pro meu quarto, pra te contar tudo, Mãe.
A chuva ia ficando fraca, e eu também ia ficando com ela, a chuva ia parando e o meu coração também, e então eu fui embora junto com a chuva, mas eu sorri, Mãe, o que importa é que agora eu sorri.


                                                                                                                                            
                                                                                                                                        Ana

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