Vomito essas palavras,
que mal cabem em minha garganta,
ganham vida própria e percorrem meus dedos,
seguram essa caneta,
e se escrevem - furiosas - elas mesmas.
Quero dizer que o tempo é certo.
O tempo é tudo de ruim e
tudo de bom.
Quero dizer que os ventos são contrários,
que são ventanias e também sopros.
Quero dizer que as coisas são passageiras,
ligeiras ou não.
Quero dizer que essas palavras são fracas,
feitas de manteiga e pão.
Disse as palavras.
Quero dizer que as coisas são uma metáfora,
e as pessoas também são.
Que o tempo apaga, e a memória não.
Que o coração palpita, e o cérebro pouco liga.
Que eu te suplico e tu não vens.
Que eu te escrevo e tu não me lês.
Que sou palavra e não me percebes,
por isso tanto me julgas.
Que me acho poeta e não sou.
Que sou feita de frases e tempos verbais,
que possuo adjetivos e estou atracada no cais.
Minha voz é rouca, mas não se vai,
nunca mais!
Que possuo medo,
desejo,
que o perigo é leviano,
que a fé não falha,
que somos feitos de saudade,
de pessoas,
de coisas,
de momentos,
de ações atitudinais,
de palavras!
Eu sou palavra e tu és também,
eu sou verbo e tu substantivo,
gosto de Camões e tu de Drummond,
eu poetizo, tu conta,
eu crio, tu aplaude,
eu sou palavra formada, quase uma frase,
e tu agora és alfabeto,
tentando se formar,
se achar,
se juntar,
se encontrar.
Agora quando o vômito acaba,
as palavras somem e vão deixando meus dedos,
derrubam a caneta,
é agora que eu digo: nada mais sou do que palavra.
A palavra me faz!
Eu sou palavra!
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