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Das imagens borradas da janela do ônibus.

  Eu tinha pego o UFSC-Semi Direto, saída Sul. O Sul é aquele que passa bem pertinho da ponte, e eu gosto de pegar exatamente esse, porque eu gosto de gostar dessa cidade, gosto de ficar olhando a Beira-Mar Norte, e ficar observando as pessoas, o mar, a paisagem, a ponte, as caminhadas, os sorrisos, as corridas.
  É como se fosse tudo tão tranquilo e como se isso representasse a nova fase da minha vida: a tranquilidade, a paz, o sossego - ahhh, como eu amo isso! Estar quieta num canto fazendo o que se gosta é muito bom, e a tranquilidade dessa paisagem me revigora. Me atrevo a dizer que para mim é a parte mais bonita de Florianópolis, a parte que eu mais gosto, a parte que mais significa pra mim e que traduz a minha vida, a parte que eu defino como tranquilidade, a parte que eu gosto de olhar, a parte que me faz dar a volta na UFSC e pegar o Semi-Direto Sul, só para olhá-la.
  Essa é a parte que merece uma poesia:


   E o ônibus ia indo rápido, como que de costume.
   Eu olhava pela janela e via todas aquelas imagens borradas que passavam por mim.
   As árvores mexiam-se. 
   E eu admirava aquela paisagem como se fosse eu,
   porque me parece tudo tão tranquilo e sossegado,
   porque a cidade parece querer fazer o meu coração bater cada vez mais calmo,
   sem pressa, 
   sem exageros,
   só batendo.
   A paisagem ia passando rápido, as árvores iam ficando pra trás,
   e eu quis pensar numa trilha sonora pra minha vida.
   Pensei em Ana Carolina,
   mas eu não queria nada muito apaixonante, 
   eu gosto do meu coração calmo, assim do jeito que ele está.
   Poderia até ser uma música dela sim, 
   "hoje eu tô sozinha,
   e não aceito conselho,
   [...] 
   mas é que se eu perder, eu perco sozinha,
   mas é que se eu ganhar, aí é só eu que ganho"
   mas aí também penso no quanto eu gosto de compartilhar minhas alegrias com alguém.
   Então pensei em John Mayer,
   e achei perfeito,
   talvez não pelo momento,
   mas pela paisagem, pela música, pela tradução,
   'pelas nuvens de enxofre no ar',
   por como a música era tranquila e se encaixava perfeitamente ali, naquele lugar,
   por como o meu coração palpitava ao ouvi-la.
   Decidi pensar em algumas pessoas e pensei em tudo, sem querer.
   Uma lágrima quis cair e eu segurei,
   engoli novamente as perguntas duvidosas que eu tinha.
   Deixei tudo pra trás mais uma vez, parado no tempo.
   No tempo, não no ar. Porque eu já não respiro mais desse ar.
   Lembrei de alguns momentos inesquecíveis,
   tive vontade de viver tudo de novo,
   de abraçar aquelas pessoas,
   de sorrir pra elas,
   de fazer elas sentirem o quanto são importantes na minha vida,
   mas nem sempre conseguimos resgatar essas pessoas pra perto de nós novamente.
   Pensei  no quanto é difícil viver sem as pessoas que a gente ama,
   mas que o tempo é tão bom, que apesar de que ele passa, as lembranças ficam,
   o sorriso fica, o abraço fica, e tudo o que foi fica como algo muito bom.
   E o carinho permanece o mesmo.
   E eu não deixo de querer bem.
   Lembrei que a saudade está sempre presente na minha vida,
   entra ano, passa ano,
   e eu sempre sinto saudade de alguém.
   Entra ano, passa ano,
   tem sempre alguém que vai embora.
   Ah,
   se as pessoas soubessem a importância delas,
   jamais teriam ido embora.
   Mas não pude deixar de sorrir pelas pessoas que permaneceram aqui,
   pelas pessoas que entraram,
   pelas pessoas que me fazem sorrir,
   por cada um que descobriu uma "beleza" em mim,
   por cada um que me ensinou,
   por cada um com quem eu aprendi.
   Mas eu lembrei também que eu eu aprendi demais comigo mesma,
   que eu me ensinei.
   Vi que a minha vida foi um pouco como o borrão da paisagem que passava correndo pela janela,
   que eu gostava, admirava, mas que não dava para parar e ficar olhando por muito tempo,
   porque o ônibus passa rápido,
   porque o ônibus da vida passa rápido,
   e eu percebi que eu não admirei todas as paisagens.
   E se eu quisesse, eu podia descer do ônibus,
   mas não desci. 
   Continuei minha vida.
   E agora eu entendi que se eu quiser descer do ônibus,
   eu posso descer,
   nada me impede.
   Que se eu quiser ver a paisagem com mais calma,
   eu posso também.
   E é isso que eu vou fazer.
   Hoje, quando eu pegar o UFSC Semi-Direto, saída Sul,
   eu vou descer do ônibus,
   eu vou observar a paisagem,
   bem quando ele parar na Beira-Mar Norte,
   e vou dizer pra mim mesma que eu consegui descer do ônibus,
   que tudo já não é como um borrão,
   e que agora eu posso enxergar com mais calma,
   com mais tranquilidade,
   com mais sossego,
   com paz.
   Posso dizer que eu senti o vento,
   e que eu vi ele levar e trazer,
   que eu vi portas se abrir e fechar,
   que eu fui ventania e calmaria.
   Que eu me abri pras pessoas,
   e que me fechei demais pra outras.
   Mas que estive com o coração sempre aberto ao amor.



                                                If you want more love
                                                why don't you say so?

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