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Cochlear Implant.

   Bom gente, já faz um tempo que não escrevo aqui no blog e resolvi vir aqui dar um oi e falar sobre uma coisa que eu nunca manifestei em redes sociais: Implante Coclear.
   Eu sei que pra muitos nem parece e acabam nem percebendo mesmo, que eu sou deficiente auditiva e uso um implante. Eu sei que por todo o meu avanço, por ter uma fala perfeita como de uma pessoa normal, por conseguir ouvir em qualidade, muitos nem acreditam que se eu tirar o aparelho eu não escuto nada, nada-de-nada, nadica de nada, N-A-D-A. Que tem lá seus privilégios, como: dormir tranquilamente sem nenhum barulho, deixar uma pessoa falando sozinha durante uma briga, com o simples ato de tirar o aparelho e não ouvir ela (essa parte é muito boa).
   Mas o real motivo que me faz querer compartilhar isso publicamente é que eu tô muito feliz por essa tecnologia ter se expandido (na época só se fazia a cirurgia em SP e nos EUA), ainda mais aqui em Florianópolis, e por ter tido um pouco de contado com essas pessoas, mesmo que tenha sido de maneira rápida. Não tem uma pessoa implantada que não me deixe emocionada por vê-la, quem me conhece sabe, isso toca muito forte o meu emocional, porque sei que não é fácil a adaptação, principalmente quando lembro que esse ano fiquei uma semana sem ouvir, por causa de problemas técnicos, é constrangedor demais ter que parar a tua rotina durante uma semana, por conta disso, e mesmo que uma semana seja pouco, é difícil também a readaptação; depois de uma semana o corpo rejeita aquele barulho forte e robótico, e a dor de cabeça triplica por todos os dias da semana sem ouvir, você quer tirar o aparelho, mas tem que ser forte e deixar ele lá.
 Então, o primeiro pequeno contato que eu tive aqui em Floripa, foi com a Mãe de uma menina, implantada pelo HU. A Mãe trabalha em uma padaria aqui perto de casa, uma vez ela me viu e me chamou no balcão:
- Oi moça, você usa implante coclear? (A voz dela, meio suave, calma, e devagar, acredito eu que com medo que eu não entendesse ela.
- Oi, uso sim, por quê?
- A minha menina tem 5 anos, ela fez a cirurgia faz alguns meses e eu estou muito preocupada. Será que vai dar certo? A quanto tempo tu usa?
- Eu me implantei com 5 anos também, já fazem 16 anos. Com certeza vai dar certo!
- Nossa, mas você fala tão bem. A minha menina também vai falar bem assim, moça?
- Vai sim, mas tudo vai depender da sua dedicação e da fonoaudióloga dela.
- Você trabalha, né? Você também estuda?
- Sim, eu trabalho e faço faculdade.
- (E ela já impressionada comigo e com a minha fala, com os olhos meio úmidos) MEU DEUS MOÇA, SERÁ QUE UM DIA A MINHA MENINA TAMBÉM VAI PODER FAZER UMA FACULDADE?
- Ela vai sim, não é porque somos deficientes auditivas que não vamos levar uma vida normal. Vai dar tudo certo!
- Muito obrigado, moça! Agora tenho que trabalhar.
- Tchau, tudo de bom pra vocês!

Depois eu não sei quanto tempo se passou que eu não fui mais na padaria. Outro dia entrei lá e a mulher fez questão de me atender:
- Oi moça, você é aquela que tem o implante, né?
- Oi, tudo bem? Sou eu sim!
- Meu deus moça, deu tudo certo, a minha menina está reagindo super bem, ela já consegue escutar alguns barulhos, até da buzina do carro, quando o meu marido chega em casa.
- Legal, fico muito feliz por isso. Ela tá indo na fono?
- Ela tá indo toda semana, como tu comentou da outra vez, eu achei importante que ela fosse mais vezes. Era só isso que eu queria falar, desculpa, pode fazer seu pedido.
- Quando precisar pode vir falar comigo sempre.

   Achei engraçada a parte do carro, porque eu também tinha certa fissura pela buzina, de qualquer carro que fosse, eu achava o máximo, assim que eu voltei a ouvir de novo.
   Depois de algum tempo sem ir na padaria de novo, a porta de dentro da padaria abre, e vem a mulher correndo pro balcão, na minha direção.
- MOÇA! MOÇA!
E eu esperei ela vindo.
- Oi!
- Moça, a minha menina já sabe falar mamãe, papai e vovó.
Nessa hora eu nem consegui responder alguma coisa pra mulher porque eu comecei a chorar, e ela estava ali, com um baita sorriso de orelha a orelha. Penso que essa também foi a reação dos meus pais quando eu reaprendi a falar.
   Eu fiquei tão feliz por isso!

   Aí esses dias na Renner, meu namorado comenta comigo que o moço que trabalha no provador, também tem aparelho igual ao meu. Pois lá foi eu me aproximar, pra ver se era mesmo, e era! EU pensei: "Mais um!". Eu fiquei um tempo parada olhando pra ele, e quando me dei conta, ele também estava parado olhando pra mim, acho que pelo mesmo motivo, ele deve ter visto quando eu estava de lado. Aí eu sei que ele olhou pra mim, sorriu, apontou pro aparelho dele, e disse em leitura labial: - Muito bom! E fez aquele sinal de "jóinha". Respondi ele, e saí de lá muito feliz, e com os olhos já um pouco úmidos.

   Outra coisa que eu queria contar é que esse ano viajei pra SP, onde fiz a minha cirurgia, e lá teve uma reunião de Pais e filhos implantados, eu era a única da minha idade, a grande maioria era bebezinho ou crianças de 4/5 anos, que estavam aprendendo a ouvir. Foi a primeira vez que eu fui sem os meus pais, e nem sabia por onde começar a falar quando chegasse a minha vez, mas depois de ouvir todas as aflições daqueles pais, todas as dúvidas, eu queria mais do que nunca falar que daria tudo certo e comecei a minha fala da seguinte maneira: "Eu queria começar dizendo que para toda recuperação e resultado, a família, principalmente nesse momento, é a parte mais importante, eles precisam muito de vocês!" Nesse momento pude perceber todos os olhos em mim, acho que a minha mão suava um pouco, e eu não parava de apertar a mão do meu namorado nesse momento. E no fim acabei falando muita coisa, que acredito que satisfez muitos deles. Parecia que eles queriam logo que eu falasse, pra saber se eu iria falar bem, parecia que estavam tão ansiosos para a minha vez, que foi o que me deixou um pouco mais nervosa.
   No final, cada um foi para a sua consulta, e eu estava no banco esperando ser atendida, quando veio o Pai de um menino falar comigo, ele sentou do meu lado, pôs a mão no meu braço e disse: - Olha, tá sendo bem difícil pra gente, é tudo muito difícil mesmo, mas ver você falando me deu mais forças, ver o modo como você lida com isso me deu forças pra continuar, e se eu continuo hoje é pelo meu filho, é pra que um dia ele seja que nem você, que ele fale assim que nem você fala, e que ele escute tão bem como você. Tá tão difícil...
   E mais uma vez eu não sabia como falar. (Pai, por favor, cadê você, me ajuda aqui, o que que eu falo pra ele?).
   Então só soube dizer mais uma vez que tudo ia dar certo, que o filho dele ia se desenvolver tão bem quanto eu, ia falar tão bem como eu falo.
   Esse foi um dos muitos dias desse ano que eu vou lembrar sempre. Eu não estava acostumada a falar sozinha em público e a conversar com as pessoas, fiquei um pouco perdida sem os meus pais, mas acho que me saí bem, incluindo o Gustavo que me ajudou muito.
Outra parte legal é que eu ajudei meu médico no doutorado dele e tive até que gravar um vídeo com ele. Ademir é o melhor fono da face da terra!

Enfim.... :D


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